2026 chegou e, com ele, a oportunidade de olhar para trás e reconhecer o que foi extraordinário.
O ano de 2025 elevou o patamar da publicidade brasileira a níveis surpreendentes — campanhas que transcenderam os limites tradicionais da propaganda para se tornarem verdadeiros fenômenos culturais, movimentos sociais e conversas nacionais. Da viralização espontânea aos movimentos de responsabilidade corporativa, das narrativas cinematográficas ao humor inteligente em tempo real, o mercado publicitário brasileiro mostrou maturidade, ousadia e, principalmente, profunda compreensão do momento cultural que vivemos.
Agora, o desafio está lançado para 2026: como superar um ano em que ovos viraram fenômeno nacional, sachês de ketchup homenagearam o Oscar, e bancos criaram universos paralelos em séries da Netflix? Como ir além quando a régua criativa foi posicionada tão alto? A resposta provavelmente virá de quem souber ler os sinais culturais com a mesma precisão, ousar com inteligência e, acima de tudo, entender que grande publicidade não é sobre vender produtos — é sobre criar conexões genuínas que as pessoas queiram compartilhar.
Antes de mirar no futuro, vamos revisitar as 10 campanhas que definiram 2025 e estabeleceram o padrão que toda agência e marca precisarão alcançar — ou superar — nos próximos meses. Estas são as ações que provaram que criatividade, coragem e timing perfeito ainda são (e sempre serão) os pilares da publicidade memorável.
1. Gracyovos (Canva)
Agência: In-house
A campanha que transformou ovos em fenômeno cultural foi desenvolvida pelo próprio time do Canva. Gracyanne Barbosa anunciou sua coleção exclusiva de ovos gourmet, apresentados em embalagem aveludada azul royal, logotipo dourado e o slogan provocativo “Foco, força e ovo”. O que parecia ser mais uma excentricidade de celebridade rapidamente dominou as redes sociais e foi reportado como notícia genuína pela mídia tradicional, até que a verdade veio à tona: tratava-se de uma estratégia publicitária do Canva para sua iniciativa “Faz Bonito”.
A genialidade desta ação reside na construção narrativa e no domínio do debate público. Ao invés de lançar um comercial convencional, a equipe criativa apostou numa história que se encaixava perfeitamente na percepção pública: a influenciadora é reconhecida por seu amor declarado por ovos, tema que já havia se tornado meme espontâneo. Essa credibilidade narrativa fez com que público e jornalistas acreditassem na autenticidade do produto, antes que Gracyanne revelasse que todo o branding, design de embalagem e vídeo promocional foram criados na plataforma Canva.
A repercussão foi explosiva e genuína: conteúdo gerado por usuários, discussões acaloradas, presença constante nos feeds e matérias jornalísticas, além de reflexões espontâneas sobre autenticidade versus criação digital. A campanha não só demonstrou as capacidades da ferramenta de design de maneira orgânica e bem-humorada, como elevou a própria cobertura midiática à condição de elemento narrativo, provocando o público a questionar realidade e criatividade enquanto se entretinha. Pouquíssimas campanhas conseguem transcender o universo publicitário para se tornarem eventos culturais — esta é uma demonstração perfeita de publicidade aliada à inteligência humorística e compreensão cultural sofisticada.
2. A Cor Autêntica do Brasil: Tracker Caramelo (Chevrolet + Netflix)
Produção: WMcCann
A montadora abraçou um ícone cultural brasileiro — o cachorro vira-lata caramelo — e o transformou em verdadeiro projeto colaborativo, não apenas em inspiração estética. Para descobrir “a tonalidade mais caramelo do Brasil”, a companhia examinou 22.918 fotografias de cães sem raça definida compartilhadas por seus donos através do WhatsApp, utilizando esse acervo coletivo como referência para criar uma pintura automotiva exclusiva aplicada em um Tracker especial.
A colaboração com a Netflix, aproveitando o lançamento da produção cinematográfica Caramelo, expandiu o alcance da iniciativa sem reduzi-la a mero licenciamento comercial. O veículo foi comercializado em leilão beneficente, com toda a receita destinada ao Instituto Caramelo, completando um ciclo pouco comum: cultura popular transformada em informação, informação convertida em produto, e produto revertido em benefício social. Em um ano onde diversas marcas apenas “utilizaram” símbolos nacionais, a Chevrolet preferiu desenvolver algo genuíno a partir deles. Essa distinção foi decisiva.
3. A Solução para Linguagem Livre: Patrocínio Boca Suja (Cif)
Produção: Droga5 São Paulo
A estratégia da Cif nasceu de uma observação clara e acurada: podcasts representam um dos ambientes mais importantes da cultura atual, porém continuam sendo rejeitados por anunciantes devido à linguagem coloquial, especialmente os palavrões. Ao invés de tentar sanitizar o meio, a Cif escolheu caminho alternativo: financiar exatamente o “bip” que censura as expressões inapropriadas, convertendo um obstáculo de monetização em oportunidade criativa.
O valor da proposta está em alterar a dinâmica do ecossistema, não simplesmente participar dele. Ao possibilitar que produtores de conteúdo preservem sua autenticidade linguística sem afastar patrocinadores, a Cif deixa de representar interrupção e passa a funcionar como estrutura viabilizadora. Em uma seleção que prioriza efeito real, poucas iniciativas em 2025 foram tão relevantes quanto esta.
4. Podia ser uma Heineken (Heineken)

Produção: LePub
A Heineken decidiu solucionar uma questão que afeta (e frustra) brasileiros de todas as faixas etárias: os intermináveis áudios de WhatsApp. A companhia desenvolveu um sistema automatizado que detecta mensagens vocais superiores a três minutos e disponibiliza um voucher de cerveja como compensação. O conceito: quem teve tolerância para suportar aquilo merece ser premiado. A mecânica emprega inteligência artificial para converter o áudio em texto e verificar a duração, transformando irritação digital em vantagem concreta.
A estratégia funciona porque identifica uma experiência compartilhada universalmente e apresenta uma resposta engenhosa. Ao invés de apenas satirizar o comportamento incômodo (como inúmeras marcas fazem), a Heineken estruturou uma dinâmica que efetivamente aprimora a vivência do consumidor, ainda que de forma simbólica.
5. Odete Roitman (Subway)
Produção: AlmapBBDO
Vinte e quatro horas. Foi o período necessário para o Subway “reviver” Odete Roitman logo após o falecimento da antagonista na refilmagem de Vale Tudo. A iniciativa de marketing em tempo real ressuscitou a personagem para “acabar com a fome”, uma jogada que prosperou porque o momento foi perfeito e a abordagem, precisa. Provocativa sem ser desrespeitosa, a campanha integrou-se à discussão que mobilizava todo o país naquele instante.
O destaque está na rapidez de implementação sem comprometer a qualidade. O Subway não apenas respondeu, respondeu com material que aparentava ter sido planejado há semanas. É a aspiração de qualquer equipe de mídias sociais: posicionar-se no epicentro do debate cultural com uma resposta que valoriza a marca sem soar artificial.
6. Cupom da Resenha (Brahma)
Produção: Africa Creative
A Brahma converteu um costume do futebol nacional em canal de comunicação: a curiosidade dos torcedores sobre o que os atletas conversam durante as partidas. Ao longo do Brasileirão, a marca inseriu códigos de promoção do Zé Delivery em diálogos entre jogadores nas competições: o que aparentava ser provocação ou conversa casual entre companheiros eram, na realidade, cupons de desconto. A revelação aconteceu através de influenciadores especializados em interpretação labial, que viralizaram nas plataformas ao decodificar as conversas e revelar os códigos ocultos.
O diferencial da iniciativa é a escolha do meio. Em vez de competir por atenção fora das linhas do campo com placas publicitárias convencionais, a Brahma descobriu dentro da própria partida uma maneira de se conectar com os apaixonados por futebol. É o tipo de conceito que parece óbvio após ser explicado, mas que ninguém havia executado anteriormente: utilizar o diálogo entre atletas como veículo publicitário.
7. Ainda Estamos Aqui (Heinz)
Produção: DAVID São Paulo
Enquanto “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, conquistava reconhecimento internacional e colocava a produção cinematográfica brasileira em evidência mundial — alcançando o Oscar de Melhor Filme Internacional — a Heinz identificou uma associação surpreendente e inteligente: os sachês esquecidos na geladeira. A campanha converteu uma observação universal (quem nunca encontrou um sachê de ketchup antigo esquecido na porta da geladeira?) em tributo ao marco histórico do cinema nacional.
“Ainda Estamos Aqui” tornou-se o conceito da ação, com os sachês assumindo o papel de sobreviventes discretos, sempre presentes, sempre aguardando sua oportunidade. A ideia funciona porque não força conexões: não é uma tentativa de apropriar-se do sucesso do filme, mas uma interpretação inteligente que encontra paralelismo genuíno entre produto e momento cultural.
8. Pacto Skincare Responsável (Grupo Boticário)
Produção: GUT São Paulo
O Grupo Boticário iniciou um movimento contrário a uma tendência que poderia favorecer diretamente seu faturamento: a “adultização” de crianças e jovens através de produtos de cuidados com a pele. O “Pacto Skincare Responsável” estabeleceu uma identificação digital para sinalizar produtos “+18” inadequados para menores, complementado por uma plataforma educacional e o compromisso de manter o catálogo livre de substâncias disruptoras endócrinas.
Os dados que motivaram a iniciativa são alarmantes: 99% das meninas brasileiras utilizam produtos de skincare, e 22% já empregam produtos anti-envelhecimento — uma tendência impulsionada por plataformas digitais e formadores de opinião. A campanha, que estreou no programa Fantástico com Angélica, estende a certificação a todas as marcas do conglomerado: O Boticário, Eudora, Vult e Quem Disse, Berenice?. É incomum observar uma marca líder questionar publicamente uma tendência mercadológica; é ainda mais incomum quando essa tendência poderia expandir suas receitas.
9. Pezinho (Nubank)
Produção: Wieden+Kennedy São Paulo
O Nubank não produziu merchandising em Wandinha: desenvolveu um universo independente à altura da série. Em colaboração com a Netflix para a segunda temporada, a instituição financeira criou “Pezinho”, uma criatura original que aspira ser ator como seu ídolo Mãozinha, mas precisa primeiro estabelecer ordem nas finanças. A realização envolveu a equipe original da produção: direção de Gandja Monteiro (que dirigiu capítulos da primeira temporada), Victor Dorobantu (o intérprete oficial de Mãozinha) e Tristan Versluis, maquiador laureado com o Emmy responsável pela criação do personagem icônico.
O produto final é conteúdo de marca que não parece conteúdo de marca. A história completa — Pezinho rejeitado em audições até conhecer o Nubank, estruturar sua vida financeira e tornar-se influenciador — funciona como entretenimento autônomo, não como intervalo comercial. A campanha foi veiculada simultaneamente no Brasil e no México, marcando a primeira ação internacional da marca neste formato, e recebeu aprovação do próprio Tim Burton. Enquanto outras instituições financeiras ainda produzem comerciais com gerentes sorrindo, o Nubank está construindo universos cinematográficos com diretores premiados.
10. William Bonner (Amstel)
Produção: AlmapBBDO
A saída de William Bonner da apresentação do Jornal Nacional representava, por si só, um marco histórico da televisão nacional. A Amstel soube reconhecer esse momento sem tentar monopolizar o acontecimento. Em Puro Sextou, a marca homenageia Bonner com bom humor e consideração, convidando o jornalista a descontrair após quase trinta anos de “boa noite”, agora, com uma cerveja puro malte em mãos.
O acerto da estratégia está na recuperação inteligente de um meme já gravado na memória coletiva: a famosa “latinha” de água aberta por Bonner em 2022, que virou piada recorrente nas plataformas digitais. Ao transformar a brincadeira em conclusão oficial — “agora, a latinha é cerveja de verdade” — a Amstel participa da conversa cultural sem ironia excessiva ou oportunismo estridente. Não é a campanha mais audaciosa do ano, nem busca ser. Mas encerra o ranking com algo fundamental: publicidade que compreende o valor simbólico dos momentos nacionais e sabe quando comunicar com sutileza, não com estardalhaço.






